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Presença

Reflexões de uma viagem ao Japão

Presença

Pra mim, poucas coisas me colocam tão inteiramente no aqui e no agora quanto uma viagem. Caminhar pelas ruas, sem destino exato, é como aprender de novo a arte de estar presente: deixar que a cidade me atravesse pelos olhos, pelos cheiros, pelos sons que eu não consigo sequer nomear. Rostos que não conheço e, ainda assim, me dizem alguma coisa. Cores, placas, prédios que se empilham no céu, gestos pequenos que revelam costumes. Há um tipo de atenção que nasce desse espanto — uma âncora fincada no agora. Um agora que, curiosamente, nem minha melhor meditação costuma alcançar. Porque aqui o mundo não combina com silêncio: ele me convida a observar e, nessa observação, eu reconheço o que sinto e o que preciso, como se a cidade me ensinasse a voltar para dentro enquanto sigo para fora.

Em Tóquio, o fuso me desloca como se eu tivesse mudado de camada do tempo. Acordo quando os meus dormem. Trabalho quando os meus descansam. Sigo adiante enquanto, para eles, ainda é “ontem”. E essa distância, que não é só de quilômetros, mas também de ritmo, de horário, de vida compartilhada, produz uma solidão rara, quase nova. Não a solidão do abandono, mas a solidão do desencaixe: como se eu estivesse do lado de fora do relógio comum, olhando pela janela uma casa onde a luz está apagada.

E, no entanto, junto dessa solidão, vem algo que parece o seu contrário: uma conexão discreta, persistente, impossível de ignorar. Porque, mesmo tão longe de casa e mergulhado em uma cultura tão diferente, a humanidade que nos costura aparece o tempo todo, sem cerimônia. As pessoas aqui também trabalham, também se cansam, também se casam e celebram e reclamam, aprendem, erram e recomeçam. Também carregam pressas e sonhos. Também vivem do jeito possível: tentando atender necessidades simples e profundas — pertencimento, segurança, descanso, sentido. Às vezes com delicadeza, às vezes com tropeços, como eu.

Talvez seja isso o que a viagem me ensine com mais honestidade: que as fronteiras são invenções políticas. E eu me pego olhando para a nossa tendência de separar com um pouco mais de cuidado. Só nós, humanos tão infantis, para querer dividir o que é uno, separar o que é inseparável e matar o que não pode ser morto… a humanidade.

E é curioso: quanto mais longe eu vou, mais isso se revela. Como se a distância, ao invés de separar, iluminasse. E eu não escrevo isso para concluir nada — escrevo como quem abre uma pergunta.

Se, por um instante, eu deixar os rótulos de lado e simplesmente prestar atenção no que acontece em mim e no outro. Talvez eu note que por trás da pressa e das defesas, exista só gente tentando viver do melhor jeito que dá. E se, em vez de aumentar a distância, eu escolher um olhar mais gentil ou uma frase de acolhimento, um cuidado a mais. E se escolher dizer "bom dia”, “obrigado” e "por favor” na língua local. Será que a vida entre nós fica mais humana? É possível que sim. É possível que abrir a mente um pouco que seja é suficiente para entendemos como somos, independente de onde estivermos, totalmente inter- dependentes.


I

Ivan Tagliaferro

Especialista em Intercâmbio

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